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Pacto pela Paz aposta na escola como centro de prevenção à violência

Projeto de segurança do Município também fortalece vínculos familiares e cria ambientes mais seguros às crianças

Por Luiza Meirelles 13-08-2019 | 10:31:47

O poder transformador da educação e dos vínculos familiares vem sendo, há dois anos, aliado do Pacto Pelotas pela Paz para combater a violência na cidade a partir da prevenção. São milhares de bebês, crianças e jovens acolhidos pela rede do Município, que acredita na formação escolar e no fortalecimento de laços afetivos para modificar realidades e, consequentemente, diminuir a criminalidade na cidade. A aposta, apesar de buscar refletir em grandes mudanças a longo prazo, já pode ser evidenciada em diversos lares e educandários pelotenses.

Lares mais seguros

É o caso de José Carlos Corrêa, 50 anos, avô de Eduarda (7), Gabriel (2) e Gustavo (1). No ano passado, precisou assumir a criação dos netos e retomar a rotina de cuidados e educação em casa – depois de concluir o compromisso com suas seis filhas, há mais de uma década. O cotidiano mudou e, com ele, os desafios para lidar com a realidade de educar três crianças, com idades e personalidades diferentes. Menos de um ano depois, o programa ACT – Criando Crianças em Ambientes Seguros foi apresentado a José e, desde então, os obstáculos estão sendo amenizados.

Família de José foi uma das 218 alcançadas pelo programa para educar sem violência – Foto: Igor Sobral

Através do programa – implantado como política pública no município de forma pioneira no mundo –, 218 pais, mães e cuidadores foram capacitados para educar seus filhos sem nenhuma forma de violência, utilizando o diálogo e o afeto como palavras-chave para embasar relações mais saudáveis e construir ambientes mais seguros. A partir de agosto, outras 200 famílias serão alcançadas.

“Minha vida melhorou bastante porque 'vejo eles' bem; tudo que faço é pelos três. Com o grupo do ACT podia trocar experiências e ver que não era o único que enfrentava algumas situações, o que era confortante. A gente aprende a ter mais controle e reaprende a amar, cuidar e proteger uma criança”, disse o avô.  

Mudança efetiva

Para a prefeita Paula Mascarenhas, a família e a escola são os grandes centros de prevenção à violência e, por isso, o Pacto confia nestes projetos para transformar vidas e tornar histórias mais felizes.

"São programas que preparam os pais para criarem vínculos afetivos mais fortes com seus filhos, que deem confiança, segurança, autoestima e capacidade para lidar com frustrações no futuro, sem fazer o uso da violência. O afeto, o diálogo e a atenção às crianças são fatores que, a médio e a longo prazos, vão trazer transformações significativas para Pelotas”, defendeu a prefeita.  

Construindo saberes

Evitar a evasão escolar – fator de risco para a violência –, resgatar a autonomia e autoestima dos jovens, consolidar a relação professor-aluno e minimizar as situações de distorção entre idade e ano norteiam outro projeto bem-sucedido do Pacto, o Construindo Saberes, que registra resultados que comprovam a eficácia do papel da educação. Neste ano, 20 educandários mantêm a iniciativa, que ocorre sempre no turno inverso ao da aula. Por intermédio de pequenos grupos de estudo, o conteúdo é reforçado, as dúvidas são tiradas e o conhecimento se multiplica a partir das explicações de professores dedicados do Município, como Jacqueline Braz, da Emef Ferreira Vianna, na Balsa.

No turno inverso da aula, há grupos de estudo para fortalecer o conteúdo e incentivar a permanência na escola e a aprovação de ano – Foto: Igor Sobral
“Não trabalhamos somente português e matemática; realizamos trabalhos de história, arte, geografia… Passamos técnicas de memorização, interpretação e formas de relacionar o conteúdo com a realidade dos estudantes. O vínculo entre professor e aluno fica mais forte e isso faz toda a diferença”, opina Jacqueline. 

Dos 12 jovens, de 7º e 9º ano, que integram o projeto, 11 foram aprovados e avançaram do primeiro trimestre. “Os outros professores relatam que os percebem mais comprometidos, concentrados e interessados em sala de aula”, complementa a docente, que compartilha a realização da iniciativa com a professora Mariza da Costa.

A construção coletiva dos saberes é refletida positivamente através dos números: no ano passado, dos 112 estudantes atendidos, 92 avançaram de ano; em 2019, dos 369 envolvidos, 208 foram aprovados.

Espírito empreendedor previne violência

A escola também tornou-se lugar de fomentar a capacidade empreendedora dos alunos e estimular o espírito de liderança em crianças, jovens e adultos. A implantação da Educação Empreendedora – parceria entre Prefeitura e Sebrae – alcançou mais de 2.750 estudantes das zonas urbana e rural de Pelotas por meio dos programas Jovens Empreendedores Primeiros Passos (JEPP) e Começar Bem. As atividades desenvolvidas nos espaços escolares têm o objetivo de encorajar os estudantes ao protagonismo juvenil e à gestão da própria vida.  

O comportamento empreendedor vai além da ideia de abrir uma empresa: representa a aquisição de habilidades que poderão ser aproveitadas em todas as etapas da vida. É o que conta a professora da Emef Independência, no Sítio Floresta, Noslen de Oliveira, ao mencionar as competências conquistadas pelos alunos do JEPP.

Cultura empreendedora trabalhada nas escolas desperta mais autonomia, responsabilidade e senso de cooperatividade – Fotos: Gustavo Vara
“Eles ficam mais criativos, disciplinados, desinibidos, aprendem a trabalhar em equipe, adquirem senso de responsabilidade e entendem a importância de planejar ações e medir resultados. É gratificante ver essas mudanças e perceber que isso chega até as famílias”, comentou Noslen, destacando que alguns estudantes passam a identificar negócios e iniciativas empreendedoras dos pais, que antes eram despercebidas. “Eles se propõem até em ajudar nesses projetos”, acrescentou a professora.

Na escola do Sítio Floresta, a atividade é praticada desde 2017 e, nestes quase três anos, 190 crianças e adolescentes, de 9 a 15 anos, foram beneficiados com aulas que instigam a confiança nas próprias escolhas e decisões. Nos dois primeiros anos, por exemplo, a professora relata que os alunos organizaram uma locadora de livros, filmes e fantasias, e criaram uma cabine fotográfica – ideia deles para aumentar o lucro.

Outra ideia dos estudantes foi criar uma praça de alimentação na escola, onde cada grupo desempenhava uma função e representava um negócio: uma empresa de salgados, uma de bebidas e outra de doces – todas com nomes, slogans e, até mesmo, jingles, criados por eles. “Foi interessante ver como todos dividiam as tarefas, trabalhavam em equipe e ficavam felizes com o resultado”, mencionou Noslen, explicando que o dinheiro arrecadado nas vendas foi revertido em viagens das turmas para um parque aquático – uma forma de relacionar o esforço empregado com a recompensa.  

Escola Independência já desenvolveu ações de empreendedorismo com 190 crianças e adolescentes – Fotos: Divulgação

São trabalhados com os discentes desde conteúdos de português, matemática e ciências, até aspectos inerentes à administração de uma empresa, como entrevista do público-alvo, pesquisa de preços, análise da concorrência e valor de mercado. Neste ano, três turmas de 5º ano da Emef Independência exercitam a competência de criar produtos alimentícios atrativos; para isso, estão aprendendo sobre higienização dos insumos, de onde eles vêm e suas características. “Todo esse processo dá uma perspectiva de mundo diferente para eles”, observou a professora.

Atualmente, 54 docentes da rede pública são instrumentalizados para a aplicação da metodologia em Pelotas.  

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educação, pacto pelotas pela paz, vínculos familiares, empreendedorismo, construindo saberes, act

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