CARTA DO TOTÓ

Por Divulgação 21-01-2004 | 00:00:00
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O II ACAMPAMENTO MUNICIPAL DO FÓRUM SOCIAL MUNDIAL constitui-se como um espaço aberto de aprofundamento da reflexão, o debate democrático de idéias, a formulação de propostas, a troca livre de experiências e a articulação para ações eficazes, de entidades e movimentos da sociedade civil que se opõem ao neoliberalismo e ao domínio do mundo pelo capital e por qualquer forma de imperialismo. Realizado simultaneamente ao 4° Fórum Social Mundial, de 16 a 21 de janeiro de 2004, teve como cenário o Eco-camping Municipal de Pelotas-RS, localizada às margens da Lagoa dos Patos, junto a Mata do Totó, remanescente de Mata Atlântica. O Acampamento foi dividido em regiões homenageando lutadores sociais e símbolos de nossa resistência: GAIA – Terra para Rose – Zumbi dos Palmares- Milton Santos- Deogar Soares. O II ACAMPAMENTO MUNICIPAL foi organizado pela poder público municipal e por um amplo conjunto de movimentos sociais e sindicais de Pelotas e região, caracterizando-se pelo pluralismo e à diversidade de movimentos que dele decidiram participar, bem como pela diversidade de gênero, etnias, culturas e gerações. O II ACAMPAMENTO MUNICIPAL consolida-se como sendo um espaço plural e diversificado que articula de forma descentralizada, em rede, entidades e movimentos engajados em ações concretas, do nível local ao internacional, pela construção de um outro mundo. Aqui se reuniram pessoas empenhadas na construção de uma sociedade planetária orientada por uma relação fecunda entre os seres humanos e destes com o planeta. O II ACAMPAMENTO MUNICIPAL faz parte do processo de caráter mundial desencadeado pelo FÓRUM SOCIAL MUNDIAL. O FÓRUM SOCIAL MUNDIAL tornou-se uma referência obrigatória para todas as pessoas, instituições e movimentos que sonham e lutam pela transformação do modelo político, econômico e social dominante hoje no planeta. Em torno desse gigantesco movimento de solidariedade emancipatória convergem esforços de muitos países, nações, sindicatos, organizações não-governamentais, pessoas e movimentos sociais e populares associados à bandeira comum da resistência e da alternativa à perversa globalização capitalista. Nessa perspectiva, o II ACAMPAMENTO MUNICIPAL se propôs a debater opções de construção de um mundo solidário, que respeite e amplie os direitos de todos os cidadãos e cidadãs, em todas as nações. Um mundo novo que preserve o meio ambiente e esteja apoiado em sistemas e instituições internacionais democráticos a serviço da justiça social, da igualdade e da soberania dos povos. Um mundo onde o público prevaleça sobre o privado, o trabalho sobre o negócio e a cooperação sobre a competição e o individualismo neoliberal. Um mundo onde não mais exista a ânsia especulativa dos mercados financeiros mundiais, que hoje podem destruir, da noite para o dia, estruturas produtivas inteiras. Um mundo com políticas públicas, com educação, saúde, habitação, lazer, cultura, trabalho e renda para todos e para todas, sem nenhum tipo de distinção, opressão, exploração ou exclusão. Para realizar esse debate, o II ACAMPAMENTO MUNICIPAL DO FÓRUM SOCIAL MUNDIAL reuniu-se em torno de quatro eixos temáticos: Militarismo, Guerra e Paz; Mídia, Informação e Conhecimento; Democracia, Ecologia e Segurança Econômica; e Exclusão, Dignidade e Direitos. A partir desses eixos, foram desenvolvidos Painéis Temáticos, Oficinas, Mesas Redondas, apresentações culturais, além de diversas atividades auto-gestionadas propostas por várias organizações e entidades, gerando a possibilidade de um debate e reflexão contínuos em torno do impacto das políticas neoliberais, principalmente, no Brasil, e suas alternativas. Os diferentes debates e manifestações artísticas e culturais desenvolvidas ao longo desses seis dias de encontro e confraternização mostraram que um outro mundo é possível, desde Mumbai ao Laranjal. Para construirmos esse novo mundo, as condições materiais estão consolidadas pelo avanço das forças produtivas. Hoje, os avanços científicos e tecnológicos permitem produzir alimentos em quantidade suficiente para toda a civilização. Permitem que se garanta uma vida digna para todos e todas. Todavia, a acumulação capitalista concentra os benefícios socialmente produzidos nas mãos de poucos, espalhando pelo planeta a miséria, a fome e a destruição do meio ambiente, aumentando incessantemente as desigualdades sociais e regionais. Como exemplo do aqui afirmado, basta verificarmos que os dez maiores conglomerados transnacionais faturam por ano mais que o PIB do Brasil, México, Argentina, Chile, Peru e Colômbia somados. Somente os lucros do ano 2000 dos quatro homens mais ricos do planeta seriam suficientes para garantir água potável e cesta básica por 10 anos para os 2 bilhões de miseráveis. Um dos construtores do FORUM SOCIAL MUNDIAL, escritor português José Saramago, em epígrafe à uma de suas principais obras, “Ensaio sobre a Cegueira” – maravilhosa e potente parábola do mundo atual - nos diz “ Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”. Com isto, por um lado, nos alerta para as armadilhas construídas por aqueles que não querem que percebamos os dramas e as injustiças engendradas pelo sistema promovendo uma espécie de ilusão coletiva. E, por outro, nos impulsiona e anima a partir do duplo sentido que emprega à palavra reparar: Que não basta ver, é preciso prestar-se muita atenção às coisas e processos, mas, fundamentalmente, que é preciso promover a reparação, a correção dos rumos, a construção de alternativas que favoreçam o desenvolvimento humano, buscando a superação da dominação dos mercados em cada país e nas relações internacionais. Portanto, um outro mundo não apenas é possível, mas é necessário e urgente. O II ACAMPAMENTO MUNICIPAL pretendeu dar um exemplo de cidadania planetária. Com o efetivo engajamento daqueles e daquelas que aqui estiveram apontamos para o futuro com a continuidade deste evento, com o III ACAMPAMENTO MUNICIPAL, na firme convicção que o novo mundo constrói-se desde o aqui e o agora. Um outro mundo é possível! Um outro mundo é necessário! Viva o acampamento municipal do Fórum Social Mundial. Pelotas, 21 de janeiro de 2004

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