Curso de Estuque deverá ser referência nacional
O Curso de Qualificação para Conservação de Forros de Estuque, promovido em Pelotas pelo Programa Monumenta, em parceria com a Secretaria de Cultura (Secult), deverá servir de referência no Brasil inteiro. Outros cursos estão em andamento nas cidades de Olinda, Ouro Preto e Rio de Janeiro, com o objetivo de capacitar mão-de-obra especializada para atuarem em obras de restauro e conservação. “Este é o único curso de estuque em forro do país, os demais são de estuque de fachada”, explica a artífices Cristina Rozisky que, juntamente com Cassiano Mattos, ministra as aulas do curso. Os dois são especialistas em estuque pela UNESCO e participaram em setembro do ano passado de um estágio de dois meses e meio, no Centro de Conservação e Restauro de Veneza. Seduzidos pela beleza ímpar dos ornamentos em estuque da cidade, a dupla decidiu adotar o município como morada. “Temos a oportunidade de fazer de Pelotas um centro de referência nacional”, comemora Cassiano que garante a estada na cidade pelos próximos quatro anos. “Existe muito trabalho a ser feito”, justifica. O grupo, orientado pela dupla, é formado por onze alunos que já passaram pelas aulas teóricas e atualmente estão na fase final das aulas práticas. As dez aulas da primeira fase aconteceram no auditório da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (Faurb/UFPel). Já a parte prática está em andamento na Casa Oito. Para integrar os alunos com as várias áreas de preservação de patrimônio, os alunos tiveram a oportunidade de assistir a palestras de profissionais gabaritados como os arquitetos Ester Gutierrez, Roberto Martins, Adriana Nunes - que faz parte da equipe responsável pela obra de restauração da Casa Oito e Fonte das Nereidas. Também ouviram depoimentos do coordenador Geral dos Cursos de Qualificação do Monumenta, Roberto Saruê, que não escondeu o fascínio e admiração pela beleza do espaço urbano da cidade, assim como a arquiteta do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), Ana Meira. O curso está na fase final de aulas práticas e irá qualificar onze trabalhadores para atuarem na mão de obra local. “Estamos com 80% da parte prática terminada, agora o grupo irá finalizar o trabalho iniciado em duas salas da Casa Oito”. Nas aulas práticas o grupo colocou literalmente a mão na massa. Começamos o trabalho pela clarabóia do prédio, dando inicialmente suporte ao estuque, com o reboco, explica Cristina. O manuseio com a cal, principal ingrediente do estuque, também foi abordado na fase inicial. “Explicamos como fazer esta pasta a base de cal, que dá a liga ao material”, disse Cassiano. O passo seguinte foi fazer a limpeza dos forros, retirando a sujeira de 100 anos. O trabalho exigiu paciência e muita minúcia, já que o trabalho é mecânico, apenas com a utilização de espátulas dentárias e pincéis. Na fase seguinte começaram a hidratação e consolidação dos forros e na seqüência um mapeamento para avaliar as condições do forro tendo em vista os degrados do tempo e a má conservação. Duas salas do histórico prédio foram escolhidas para as aulas práticas: o dormitório do conselheiro Francisco Antunes Maciel, e de sua filha. “O primeiro deles, em branco, possuí no forro ornamentos com motivos de rostos e moedas, provavelmente referentes a sua atuação profissional”, supõe Cassiano. Já no da menina a cor rosa é predominante nos motivos infantis. Divididos em dois grupos os alunos realizaram a limpeza a seco do forro e o mapeamento e quantificação dos ornamentos a serem trocados ou recuperados. “Fizemos também o processo de desanilização das peças, uma a uma com compressas de água destilada”, explica Cristina. Segundo ela o processo permite a neutralização da superfície caso o problema de infiltração já tenha sido sanado. Após este passo os alunos aprendem a misturar o consolidante* para injetá-lo entre as fissuras com a utilização de agulhas de seringas ou sondas. O processo é longo e demorado e exige muito empenho e atenção do grupo. A idéia dos artífices é fazer com que até o final do curso os alunos consigam concluir totalmente as duas salas em andamento. Na avaliação dos professores a cidade possui um potencial imenso que deve ser explorado. “Temos a oportunidade de fazer o nosso centro de referência já que, nesta área, o Brasil está voltado para cá”, comemoram. Os projetos futuros incluem parcerias com centros de qualificação técnica local. O estuque é o começo de um projeto que inclui também um resgate às escarolas e rebocos históricos e pinturas de fachadas. “Todo mundo que vem de fora se impressiona e valoriza esse patrimônio, temos que recuperá-lo”, argumenta Cassiano. O ingresso no mercado de trabalho é a grande expectativa dos alunos, futuros auxiliares técnicos. A escultora Márcia de Pauli, por exemplo, que fez sua monografia sobre o assunto, e teve como objeto de estudo a Casa Oito, sente-se realizada com o aprendizado e pretende seguir trabalhando com estuque. A mesma opinião é dividida pelo estudante de arquitetura, Jéferson Salaberry, que após concluir o curso no final do ano, deverá seguir no ramo de restauração.”O curso está dando a oportunidade de nos qualificarmos com uma técnica esquecida e ao mesmo tempo fundamental para a conservação da nossa cidade”, avalia. Davi Augusto Souza Xavier, sugeriu aos colegas a formação de uma cooperativa após o término do curso. “Queremos ingressar no mercado de trabalho e participar da reconstrução da nossa cidade”, disse ele que pensou também na possibilidade de organizar uma mostra do trabalho desenvolvido durante o aprendizado. O entusiasmo do grupo é dividido com a coordenadora do Monumenta em Pelotas, Carmen Vera Roig que comemora a inclusão de uma cláusula que dita uma nova regra para o edital de contratação de obras. O objetivo da medida é proporcionar a inserção destes profissionais no mercado de trabalho, para tanto foi incluída esta cláusula na Minuta do Edital para Contratação de Obras, no que se refere à contratação de mão-de-obra especializada, explica Cardem. O município deverá empregar pelo menos 50% da mão-de-obra local e no caso de artífices o percentual não poderá ser inferior a 60%. Com a boa notícia os alunos do curso já podem projetar um futuro próximo e sonhar com a possibilidade de seguir os passos dos mestres que hoje dividem o trabalho entre cursos, consultorias e obras dos mais diversos tempos. Atualmente estão prestando seus serviços a arquitetos de vanguarda, como Rudelger Leitzke que contratou os artífices para fazer uma escarola na reforma de um apartamento em Porto Alegre. “Além da restauração, o mercado tem espaço para utilizar esta antiga técnica para que não se perca no tempo” disse ela, “o processo é tão qualificado que poderá ser utilizado para contar a história para outro século”. Para a arquiteta a possibilidade de utilizar a técnica dentro de uma concepção contemporânea dá um novo conceito ao estuque.