A troca de experiências foi apontada por vários participantes como ponto alto do evento

Poder Escolar dá voz a professores

A troca de experiências foi apontada por vários participantes como ponto alto do evento

Por Alessandra Meirelles – MTb/RS 10052 18-08-2026 | 13:13:00
Tags: poder escolar , simpósio

Os simpósios foram dos momentos mais esperados do Poder Escolar. Neles, as discussões foram direcionadas por temas, com cada participante podendo escolher sobre o que queria falar e ouvir. Foram submetidos 210 trabalhos, divididos em 11 temas. Os simpósios foram distribuídos por vários locais, para acolher os mais de 1.600 participantes – teatros Guarany e Sete de Abril, universidades Federal (UFPel) e Católica de Pelotas (UCPel), Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul), colégios estaduais Cassiano do Nascimento, João XXIII, Tiradentes e Sílvia Mello.

O coordenador do Centro de Apoio à Gestão e Pesquisa Educacional da Secretaria de Educação (SME), Mauro Del Pino, explica que os 11 simpósios temáticos foram definidos com a escuta dos professores. Um formulário foi criado e enviado para as redes de educação, e a partir das respostas, foram estabelecidos os eixos dos simpósios. 

Para o professor, “isso dá um sentido muito especial a esse poder escolar. Não estamos apenas falando sobre a escola, estamos criando um espaço para que quem faz a escola possa falar sobre ela, compartilhar suas experiências, seus conhecimentos, suas inquietações e suas possibilidades. É por isso que esse evento é tão grande, e não apenas pelo número de participantes, mas pela qualidade da construção coletiva que conseguimos realizar”, avaliou.

Quem apresentava trabalhos, mostrava um pouco da sua experiência na educação para os colegas, as estratégias para ensinar e conquistar os alunos, para mostrar que aprender também pode ser interessante, divertido, ou que a escola não é algo distante da realidade.

Conheça quatro trabalhos apresentados nos simpósios

Capoeira

O professor de português da Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Piratinino de Almeida, Jeean Karlos Souza Gomes, apresentou o trabalho “Agachados ao pé do berimbau: entrelaçando poesia e corpo”. Ele entrou na rede municipal em 2023, e levou a capoeira para a sala de aula, usando a ginga para apresentar poemas aos adolescentes. Hoje trabalha o tema com quatro turmas de oitavo ano, com alunos de 13 e 14 anos.

Fotos: Manuela Santos

Jeean começou a fazer capoeira durante a pesquisa do doutorado, para entender parte da teoria que estava estudando, e nunca mais parou. A ideia é conquistar os alunos com os movimentos. “Os alunos têm a necessidade de se movimentar, e às vezes eu pego uma turma que tem três períodos de português. Imagina, sentar enfileirado, só reproduzir conhecimento. Eu acho que esse não é o caminho, então eu levo a capoeira justamente pra movimentar e, além disso, estudar poesia”. Ele usa a capoeira em “uma vertente poética, numa vertente de outra gramática, de outra linguagem”, e avalia que ela se tornou a porta de entrada para os poemas, um momento de diversão. “Vamos nos movimentar, fazer uma ginga. O que é a ginga? A ginga nada mais é do que o nosso andar, né? Um pé na frente, a mão atrás, e outra mão na frente, é como a gente anda”, e isso é relacionado com a leitura. Os alunos dizem “ah, professor, esse movimento que o senhor fez, esse movimento que eu fiz, é esse que tá escrito aqui?”, e logo concluem “então, eu tô fazendo poema, mas não tô escrevendo”, com o que Gomes concorda, eles estão fazendo poema com o corpo. Com isso, além de ler em sala de aula, o professor está conseguindo instigar adolescentes a procurarem livros dos autores trabalhados nas aulas. “Teve aluno que chegou pra mim, e perguntou o nome do autor, para pesquisar fora”, comemora. Ele usa um exemplo, “o livro Poemas para ler com palmas, que é justamente uma figura de linguagem, é uma sinestesia, é uma mistura de sentidos, a visão com o tato. A gente aborda ali metáfora, metonímia, a própria sinestesia, entra no arcabouço da gramática”, conclui.

Samba-enredo

A professora de português e literatura, e coordenadora do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Neabi) da Escola Municipal de Ensino Fundamental Saldanha da Gama, Jociane Coelho Nunes, apresentou o trabalho “Manoel Padeiro – ‘O zumbi dos Pampas’ – Educação antirracista e memória negra em uma experiência pedagógica”, que desenvolveu com os alunos de 8º e 9º ano. 

Foto: Manuela Santos

Ela é professora da rede há 26 anos, já havia participado de outras edições do Poder Escolar, e considera a integração e a troca de experiências a parte mais interessante. “Nessa troca de experiências, a gente mostra o que está fazendo na sala de aula, e vê o que os outros estão fazendo, também”. Ela diz que é possível trabalhar a questão racial em todas as disciplinas. “Muita gente acha que não, mas dá pra trabalhar na língua portuguesa, na matemática, na física, na ciência, em tudo. Jociane conta que utiliza diferentes ferramentas para atrair os alunos, como sambas-enredo e letras de rap, deixando clara a autonomia pedagógica para desenvolver o trabalho. “Eu trabalhei a temática da mulher com o samba-enredo da Mangueira de 2019, aí vou trabalhar a história indígena com o samba-enredo do Salgueiro de 2024. Dá pra trabalhar muita coisa com samba-enredo”. Ela avalia que essa estratégia leva vivência para os alunos – “traz para a realidade deles”.

Correio

O professor da Escola Municipal de Educação Infantil (Emei) Albina Peres, Patrick Salazar da Silva, apresentou o trabalho “Correio das Descobertas: narrativas, brincadeiras e protagonismo infantil na construção de experiências significativas na Educação Infantil”. Há três anos ele trabalha com crianças de quatro e cinco anos, e conta que o lema da escola é brincar e aprender. Patrick sempre gostou de saber o que as crianças gostariam de aprender, por isso faz esse levantamento no início do ano e passa a trabalhar esses temas.

Foto: Manuela Santos

O instrumento para garantir o interesse das crianças é uma caixa de correio, o Correio das Descobertas. “Eu levo uma caixa de correio pra sala de aula, e nessa caixa a gente começa a receber algumas correspondências”, e é nessas cartas que começa o desenvolvimento da aprendizagem. As informações chegam gradativamente, para dar espaço para a criatividade dos pequenos. “Por exemplo, quando teve a carta da Barbie, a gente foi trabalhar o tema da diversidade, da diferença, da identidade, a gente primeiro recebeu uma carta com a letra B, e era uma carta rosa. Ali já começaram a criar hipóteses sobre quem era o dono daquela carta. Aí começaram a falar que era uma boneca, que era uma menina, porque era rosa, até que, enfim, chegou a boneca com a proposta. Eu levei várias bonecas, Barbies e Kens, perguntei pra eles com quem que eles se identificavam, quem eles achavam mais bonito, quem eles achavam mais diferente. Depois, a cada semana, foi chegando uma boneca diferente, com alguma condição especial, e nós trabalhamos autismo, síndrome de Down, deficiência auditiva, cegueira, baixa visão, cadeirantes com prótese. A gente trabalha todas essas características. Trabalhamos, também, tipos de corpo, tem gente que é mais baixinha, mais gordinha, mais magrinha, mais alto”, contextualizou para mostrar a variedade de temas que se pode trabalhar com recursos simples. “A Barbie careca foi a que mais acharam diferente, e eles sempre associavam a uma pessoa doente, e eu falava, ‘não, ela pode ser careca porque ela se acha bonita assim. Tu não acha ela bonita assim? Pode ser uma escolha dela, né?’ E a partir das respostas deles, tu vai montando as tuas próximas aulas”.

O professor diz que o Poder Escolar “é importante pra gente poder trocar experiência”, e conta que foi incentivado pela coordenadora a participar, para que outras pessoas conhecessem o trabalho dele. “Sempre que tem formação de professores, a gente troca muito, a gente aprende muito um com o outro, troca de atividade, troca de temas que pode abordar, então eu acho ótimo ter essa oportunidade”, disse o professor.

Educação para a solidariedade

Estudantes do ensino fundamental e médio regular, e da Educação de Jovens e Adultos (EJA) são o foco do projeto apresentado pelas professoras Verônica Roldan e Bibiane Albuquerque, “A solidariedade como caminho para a emancipação humana: relato do processo de curricularização dos princípios da economia solidária na rede municipal de ensino de Pelotas/RS”, desenvolvido por um grupo composto por integrantes da Secretaria de Educação (SME), UFPel e IFSul. 

Foto: Manuela Santos

O grupo tem a missão de direcionar componentes curriculares para os princípios da economia solidária. Com base em autores como Paulo Freire, Paul Singer, Leonardo Boff, e Ailton Krenak, que defendem a visão crítica transformadora, uma proposta de modificação da realidade a partir da sua análise, foram reconstruídas as ementas, e a nova proposta foi apresentada aos docentes da rede que trabalham com esses componentes. “Agora estamos construindo o caminho da formação docente”, explica Verônica, ao dizer que está escutando os professores sobre as temáticas que eles querem levar para essas disciplinas. “A gente construiu elementos, planos de ensino para cada modalidade da educação, que agora estamos repassando aos professores, e sendo muito bem acolhidos”, continuou.  

Para os alunos do EJA, será oferecido um novo componente, “Cooperação, Trabalho e Sustentabilidade”. Por ter uma noite dedicada a essa disciplina, os professores poderão propor debates e formação nos conhecimentos específicos da área e, ao mesmo tempo, estimular a criação de cooperativas escolares e de feiras nas comunidades, além de apontar caminhos de associativismo, para que possam se unir, formar coletivos e pensar outros caminhos para a melhorar de vida e a renda.

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